Já de madrugada, entre piscadas lentas do acordar, via pela brecha da janela e da cortina do ônibus a “Cidade Maravilhosa”. Todos sentados só ouviam o murmurinho. Equívoco meu! Um já estava em pé e falando pelos cotovelos. Ao chegar no albergue, esse que no futuro viria a ser o nosso “lar doce lar”, não se podia entrar. Ele dizia: “Só ao meio dia!”. Fomos assim “passear”. E quando digo fomos, refiro às pessoas as quais peguei imenso carinho, que inventaram minha viajem. Também não deve esquecer-se das recomendações: “Cuidado!”, “Não carregue bolsa!”, “Não leve camera, celular!”, “Não evidencie ser turista!”. Ora bolas, o que somos?
Andando pela praia, vendo o amanhecer, risos, fotos, comparações, um início. No vai e vem, lá estava o Centro. O fabuloso Centro do Rio de Janeiro. E do centro já estávamos em Niterói! A triste Niterói. Do albergue nada posso falar. Uma mistura de amor e ódio quanto àquele lugar. De lá surgiram discussões, mas também foi de lá que se criaram os vínculos. Vínculos estes que já acabaram outros que vão perdurar. Tudo isso no primeiro dia, “Quem diria nos próximos!”, vários diziam. Segundo dia, passeios até o final da tarde. Nenhum minuto podia-se perder. Alvoroço, entusiasmo, vontade do conhecer. Víamos sermos guiados, e tal guia não era como os outros não. Este era especial, era nosso, era único. E nada de tanto elogios a ele, perfeição está longe de alcançar, era amado e odiado, como disse a princípio: era único. Digo que foi nessa sexta-feira, no segundo dia da nossa façanha, eu entendi o que estava fazendo ali. Isso se deu justo em Niteroi, em uma sala, ouvindo não um professor acadêmico, mas sim um professor diferente, particular. O que ele ensinava? Ensinava a viver. Vivia e trabalhava no morro, não fazia por dinheiro, fazia por amor. Via, o ouvindo, quão ignorante eu era. A partir dali compreendi o que vários há tempos tentavam apontar.
Publicidade Comunitária foi a oficina que peguei. Patrícia e Juan foram os oficineiros, esses os quais adquiri muito apreço. Terceiro dia: oficinas. Todos na correria, ESPM, UFRJ... Pela noite, uma visita na Lapa. A tão falada adorada e imunda Lapa. Quarto dia, quem estava adiantado: praia, quem não estava: trabalho, e para os curiosos: Santa Marta. Porém à noite era festa no albergue. Bebida, risada, música e show! Sim, show. E foram o guia, juntamente com o declamador e o sedutor quem fizeram o espetáculo. O quinto-dia foi frenético. Devido à entrega dos trabalhos, que seriam apresentados à noite, todos estavam apressados: deviam finalizar seus projetos! E que encerramento explêndido. Tudo que estava alí não era de altíssima qualidade, porém suportava uma carga de conceitos e informações muito alta, a mensagem foi passada. Certas barreiras foram quebradas. Os “escolhidos” foram treinados. Muitos passaram despercebidos, outros já começaram a fazer a diferença. Finalizando essa noite, “Feliz Aniversário Mariana!”
O último dia. Se no primeiro estávamos correndo contra o tempo, no último estávamos indo além. Tinha ainda muito que fazer. E tudo antes do jogo do Brasil. Copa! Desde o ínicio até o final do futebol, o Rio parou. Bela política de pão e circo! Nada se podia fazer, a não ser torcer. Última noite na “Cidade Maravilhosa”. Quantos preconceitos eu tinha dela, quantos eu deixei de ter e quantos eu passei a ter. Cidade como as outras. Cheirando ainda à colônia, tanto para aprender, tanto para envelhecer, tanto para renovar. Porém, assim como todas as outras, com suas peculiaridades.
Devo agradecer, e de bom grado, pois estas já admirava há tempos, a coordenadora e a orientadora. Não por proporcionar a viagem, muito menos por mera bajulação, mas por terem aberto minha mente.
“Sai da caixa!”, foi o que mais ouvi. E “Sai da caixa!”, é o que mais passei a falar. Posso dizer que a minha caixa se abriu. E a sua? Que dia abrirá?
Isadora Prado.
1 comentários:
jamais me esquecerei!
Postar um comentário